Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Artigo Técnico: Relação de Transformação em Transformadores (Parte 1)

Introdução à Transformação de Tensão

O transformador é um dos componentes mais cruciais em sistemas elétricos, sendo responsável por viabilizar a transmissão e o uso eficiente da energia ao longo das redes. A sua função primária é transformar a tensão — seja rebaixando, como em exemplos de 200 V para 24 V, ou elevando, como de 220 V para 440 V. A chave para entender como essa transformação ocorre reside na relação de volt por espira e, subsequentemente, na relação de transformação (A). Este artigo se propõe a desvendar esses conceitos fundamentais, essenciais tanto para iniciantes quanto para profissionais experientes na área elétrica.

Um transformador é composto por um enrolamento primário (onde a tensão é aplicada), um enrolamento secundário (onde a tensão transformada é obtida) e um núcleo. A capacidade de elevar ou rebaixar a tensão depende diretamente da relação entre o número de espiras (voltas) em cada um desses enrolamentos.

O Conceito Fundamental: Volts por Espira

Para compreender a transformação, é necessário primeiro calcular a relação de volt por espira ($V_{espira}$). Essa relação é crucial, pois ela se mantém constante tanto no primário quanto no secundário do transformador, devido ao fluxo magnético gerado pela bobina primária que circula por todas as espiras do secundário.

O enrolamento primário atua como um divisor de tensão, onde a tensão aplicada se divide igualmente entre as resistências representadas por cada espira.

A fórmula para a relação de volt por espira é dada por:

$$V_{espira} = \frac{V_P}{N_P}$$

Onde $V_P$ é a tensão no primário e $N_P$ é o número de espiras no primário.

Exemplo Prático (A): Calculando a Relação de Volts por Espira

Consideremos um transformador que opera com:

  1. Tensão no primário ($V_P$): 150 V
  2. Número de espiras no primário ($N_P$): 50 espiras

A relação de volt por espira será: $$V_{espira} = \frac{150 V}{50 \text{ espiras}} = 3 V/\text{espira}$$

Este resultado indica que, em cada espira do primário, cai uma tensão de 3 V.

Como essa relação se mantém no secundário, se o enrolamento secundário ($N_S$) tiver 300 espiras, podemos calcular a tensão de saída ($V_S$): $$V_S = V_{espira} \times N_S$$ $$V_S = 3 V/\text{espira} \times 300 \text{ espiras} = 900 V$$

Neste caso, a tensão foi elevada de 150 V para 900 V, o que caracteriza um transformador elevador.

Conservação de Potência e Inversão de Corrente

Uma característica vital dos transformadores é a conservação de energia. Pela lei da conservação, a potência de entrada no primário ($P_1$) é igual à potência transferida para o secundário ($P_2$), ou seja, $P_1 = P_2$. Não há criação de potência, apenas a sua transferência.

A potência aparente ($P$) é definida pela tensão ($V$) multiplicada pela corrente ($I$) ($P = V \times I$). Portanto, para que a potência se mantenha constante, existe uma relação de proporcionalidade inversa entre tensão e corrente:

$$V_P \times I_P = V_S \times I_S$$

Exemplo Prático (B): Corrente e Potência

Mantendo os valores do exemplo anterior ($V_P=150 V$, $V_S=900 V$), se assumirmos uma potência aparente nominal ($P$) de 450 VA:

  1. Corrente no primário ($I_P$): $$I_P = \frac{P}{V_P} = \frac{450 \text{ VA}}{150 \text{ V}} = 3 A$$
  2. Corrente no secundário ($I_S$): $$I_S = \frac{P}{V_S} = \frac{450 \text{ VA}}{900 \text{ V}} = 0,5 A$$

Percebe-se que, ao elevar a tensão de 150 V para 900 V, a corrente necessária no secundário diminuiu de 3 A para 0,5 A. Para conservar a potência, quando a tensão é elevada, a corrente é reduzida, e vice-versa.

Implicações Físicas: Essa relação tem um impacto direto no projeto dos enrolamentos. O enrolamento que conduz a maior corrente (o de menor tensão) deve utilizar um condutor com maior bitola (seção transversal mais grossa), enquanto o enrolamento de maior tensão (que transporta menor corrente) pode ter uma seção de condutor menor.

A Relação de Transformação (A)

A Relação de Transformação (A) indica a proporcionalidade existente entre o secundário e o primário. Este valor é adimensional, ou seja, não possui unidade de medida, mas representa quantas “vezes” a tensão, espira ou corrente no secundário é maior ou menor que no primário.

A relação $A$ pode ser calculada usando tensão ($V$), número de espiras ($N$) ou corrente ($I$).

  1. Relação Tensão/Espira (Proporcionalidade Direta): $$A = \frac{V_S}{V_P} = \frac{N_2}{N_1}$$
  2. Relação Corrente (Proporcionalidade Inversa): $$A = \frac{I_1}{I_2}$$ (Note a inversão: primário $I_1$ em cima, secundário $I_2$ embaixo)

Exemplo Prático (C): Calculando A

Usando os valores do Exemplo A e B ($V_P=150 V, V_S=900 V, N_1=50, N_2=300, I_1=3 A, I_2=0,5 A$):

  • Pelas tensões: $A = 900 V / 150 V = 6$
  • Pelas espiras: $A = 300 / 50 = 6$
  • Pelas correntes: $A = 3 A / 0,5 A = 6$

O valor de $A=6$ confirma que a tensão e o número de espiras no secundário são seis vezes maiores que no primário, e que a corrente no secundário é seis vezes menor que no primário.

Classificação dos Transformadores

O valor de $A$ permite classificar o transformador em três categorias principais:

  1. Transformador Elevador: Ocorre quando $A > 1$.
    • A tensão no secundário ($V_S$) é maior que no primário ($V_P$), e o número de espiras no secundário ($N_2$) é maior que no primário ($N_1$).
    • Exemplo: $A=6$.
  2. Transformador Abaixador/Rebaixador: Ocorre quando $A < 1$.
    • A tensão no secundário é menor que no primário, e o número de espiras no secundário é menor que no primário. Neste caso, a corrente no secundário é o inverso, sendo maior.
    • Exemplo: Se $A=0,5$, a tensão de saída é metade da tensão de entrada.
  3. Transformador Isolador: Ocorre quando $A = 1$.
    • A tensão de entrada é igual à tensão de saída, e os números de espiras são iguais ($N_1=N_2$). Embora não altere a tensão, este tipo de transformador é crucial para a proteção contra choques elétricos e isolamento de circuitos.

Conclusão

A relação de transformação é a base para o entendimento e projeto de transformadores. Seja para determinar tensões ou correntes desconhecidas ou para classificar o tipo de dispositivo (elevador, abaixador ou isolador), o domínio das fórmulas de $V_{espira}$ e $A$ é indispensável, garantindo que a lei da conservação de energia seja sempre mantida.

Luis Henrique

Engenheiro Eletricista (UTFPR) com experiência na empresa Siemens e Braskem. Atua como Analista no Insper e Professor no SENAI, ensinando Comandos Elétricos, Energia Solar, automação e elétrica residencial e predial. Compartilha conhecimento técnico e vivências em Engenharia Elétrica.

Luis Henrique

Engenheiro Eletricista (UTFPR) com experiência na empresa Siemens e Braskem. Atua como Analista no Insper e Professor no SENAI, ensinando Comandos Elétricos, Energia Solar, automação e elétrica residencial e predial. Compartilha conhecimento técnico e vivências em Engenharia Elétrica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comandos, instalações e automação de forma simples e segura.

CONTATO

CATEGORIAS

Copyright © 2025 Elétrica360. Todos os direitos reservados